img-1-508-mod$$3849

Com os blocos de terra crua o homem construiu cidades inteiras que permanecem íntegras até os dias atuais. Exemplos vivos não faltam, desde as edificações maias e incas ao casario colonial de Minas Gerais ou as construções do Oriente Médio. Revisitada em meados do século XX, a tecnologia ancestral evoluiu e é tendência no mundo atual, especialmente nos projetos que perseguem os conceitos da sustentabilidade por se tratar de material local e disponível; com custo energético muito baixo; não poluidor; completamente reciclável, reintegrando-se facilmente na natureza; com ótimo comportamento térmico; e adaptável à autoconstrução. Seu custo também é atraente: a alvenaria chega a ser 30% mais barata, se comparada àquela de tijolos convencionais.No Brasil, destaca-se o estudo e a prática do professor Normando Perazzo Barbosa, coordenador do Laboratório de Materiais e Estruturas da UFPB – Universidade Federal da Paraíba. Doutor pela Universidade Pierre et Marie Curie, Paris, o engenheiro foi, por longos anos, parceiro do professor Roberto Mattone, do Politecnico di Torino, Itália, autor de uma fôrma inovadora que, por seus encaixes horizontais e verticais, produz uma alvenaria prática, rígida e resistente. Uma prensa manual que permite a fabricação do bloco Mattone, produz 300 blocos/dia. Uma casa de 50 m² emprega entre 3 mil e 4 mil blocos, portanto, é possível produzir tijolos e erguer uma casa em 15 dias.

“O bloco é produzido com terra crua misturada com cimento compactado em uma prensa manual. Existem hoje no mercado diversos tipos e tamanhos de prensas. A que utilizo é de origem francesa, mas com a fôrma desenvolvida pelo professor Mattone. Essa fôrma facilita a construção e melhora a resistência e qualidade da alvenaria”, diz Normando Perazzo, revelando que a última prensa foi fabricada na universidade, seguindo o modelo italiano. “Temos quatro prensas, porém três estão muito velhas, precisamos renovar”, diz.

Não é com qualquer tipo de terra que se produz o bloco. O professor lembra que é importante o conhecimento das dimensões das partículas que compõem a terra, pois seu comportamento mecânico depende delas. Segundo o diâmetro médio das partículas, elas são classificadas em:

  • Pedregulho – partículas de dimensões entre 4,8 e 50 mm;
  • Areia – partículas de dimensões entre 50 µm e 4,8 mm;
  • Silte – partículas finas entre 5 µm e 50 µm;
  • Argila – partículas finíssimas, só visíveis ao microscópio, com dimensões inferiores a 5 µm.

“Para compor o bloco, a quantidade de argila deve ser de cerca de 25% do total dos elementos da terra. É ela quem dá coesão à terra úmida, comportando-se, portanto, como um ligante”, explica.

Segundo Perazzo, o uso do cimento Portland tem a finalidade de estabilizar o solo para a produção do bloco, melhorando suas propriedades, inclusive sob a ação da água. A percentagem do estabilizante depende do tipo de solo que se vai empregar e também da resistência requerida. “Se houver muita argila presente, vai ser exigido no mínimo 6 % de cimento. Se o solo é excessivamente arenoso, podem ser requeridas taxas maiores. Se o solo é bem graduado, 4% e, até mesmo, 2% de cimento, já aumentam a resistência em relação ao material bruto, levando a blocos de ótima qualidade”, ensina, lembrando que é urgente a elaboração de normas técnicas brasileiras para construção com blocos de terra crua, como já ocorre no exterior.


QUALIDADES

“A produção dos tijolos de terra crua tem muito menos energia envolvida, se compararmos com a dos blocos de concreto. Lembro que um dos grandes desafios da humanidade, hoje, é a redução do consumo de energia, sendo que a construção civil responde por cerca de 40% do total consumido”, destaca. Segundo Perazzo, as propriedades térmicas do material chegam a ser 30% superiores às do bloco de concreto e até mesmo do tijolo comum. “Mas, é difícil mensurar, pois depende da matéria-prima, da compactação, do tipo de prensa utilizada”, observa.

Paredes construídas com tijolo de terra crua tipo Mattone dispensam revestimento, porque as peças são muito lisas e uniformes. Diferentemente do bloco convencional que usa argamassa de cimento e areia, o de terra crua aproveita a mesma massa com a qual foram feitos os tijolos. Como é da mesma cor, pede apenas o cuidado de limpar os excessos durante o processo construtivo.

Do ponto de vista do controle de umidade relativa do ar nas edificações, experimentos de Minke (2005) mostram que, em um ambiente com 30 m² de paredes e 3 m de altura, quando a umidade subitamente passa de 50% para 80%, se forem de tijolos de terra crua, as paredes absorvem 9 litros de água em 48 h, ao passo que uma parede idêntica de tijolos cerâmicos só seria capaz de absorver 0,9 litros no mesmo período. “Se ocorrer o contrário, a umidade relativa diminui, as paredes de terra liberam de volta a umidade ao ambiente. Por isso, as casas de terra na Europa são tidas como benéficas para a saúde”, acrescenta Perazzo.

DESINTERESSE OFICIAL

Apesar de o Brasil estar correndo atrás do grande déficit habitacional e de o custo de uma casa construída com essa tecnologia ser cerca de 30% menor do que o da convencional, “não temos apoio de verbas governamentais para produzir em escala, recebemos praticamente migalhas”, revela Normando Perazzo, que segue apenas com a ajuda de organizações não governamentais italianas e brasileiras, inclusive da igreja, para construir moradias populares em sua região. “Já empregamos bastante a tecnologia na Paraíba, onde trabalho a produção dos tijolos com a comunidade, para construir habitações e equipamentos comunitários”, conta.

Neste momento, o professor trabalha num projeto desenvolvido em conjunto com a entidade Casa dos Sonhos, que envolve mulheres de uma favela de João Pessoa para a fabricação dos blocos e, depois, a construção de sete casas. “É uma engenharia social”, afirma, dizendo que o financiamento virá de uma ONG italiana e a Lafarge doou o cimento para produzir três das sete habitações. Perazzo chega a reverter parte da receita oriunda da prestação de serviços do Laboratório de Materiais e Estruturas da UFPB para a construção de casas para a comunidade. “Os blocos de terra crua se inserem no conceito de tecnologia apropriada, ou seja, tecnologias simples que podem ser absorvidas por pessoal pouco letrado. Mas, um mínimo de conhecimento é necessário, e o pessoal que trabalha tem que ter quem os dirija. No projeto atual, temos três pessoas contratadas pela ONG italiana Mattone su Mattone. As mães da comunidade farão a sua parte”, ressalta o professor.

FONTE: http://www.aecweb.com.br/aec-news/materia/5128/blocos-de-terra-tendencia-no-mundo.html

Anúncios

Blocos de terra, tendência no mundo

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s