Obras sustentáveis: o uso de tubos de papelão na construção civil

Por: Alana Maria Prado e Carolina de Souza Lopes

O avanço contínuo da tecnologia ocorre devido, principalmente, à demanda de satisfazer as necessidades de consumo da sociedade atual. No entanto, tal feito tem aumentado consideravelmente a exploração inadequada dos recursos naturais e a quantidade de resíduos existentes no meio ambiente. Nesse contexto, as ações humanas têm gerado grandes impactos ambientais que põem em risco tanto o meio ambiente quanto as gerações futuras.

Ao mesmo tempo, a crescente desigualdade social vem acentuando os problemas relacionados ao déficit habitacional. Boa parcela da sociedade com menor poder aquisitivo não possui pleno acesso à recursos básicos de infraestrutura, educação, saúde, segurança, entre outros serviços essenciais, e a causa disso está diretamente relacionada ao fato dessas pessoas habitarem moradias precárias ou não possuírem uma moradia.

Essas realidades mobilizam os diferentes setores da sociedade a buscarem caminhos alternativos para que, gradualmente, tais problemáticas sejam solucionadas.

Na indústria da construção, o uso do papel vem crescendo, aos poucos, devido a sua capacidade de ser reciclável, suas propriedades mecânicas para suportar cargas estruturais e sua acessibilidade – o Brasil produziu cerca de 15,8 milhões de toneladas de papel em 2018, segundo a Indústria Brasileira de Árvores (Ibá). Assim, uma alternativa sustentável para substituir alguns dos materiais convencionais de construção, que, em geral, produzem muitos resíduos e não atendem as necessidades de baixo custo da população de classe pobre, é a utilização de tubos de papelão, os quais podem ter uma função estrutural dentro da edificação.

O arquiteto Shigeru Ban foi o pioneiro na utilização de tubos de papelão como estrutura de suas obras. Apesar de, desde 1950, o papelão já ser largamente utilizado como molde para colunas de concreto, Ban buscou novas formas de aplicação desse material em suas estruturas arquitetônicas. Em 1989, após estudos sobre a resistência dos tubos de papelão, o arquiteto utilizou, pela primeira vez, esse material com função estrutural em um caramanchão. Depois disso, Ban aplicou a estrutura em várias outras construções como abrigos, escolas, catedrais, etc.

Além do caráter sustentável, o interesse pelo papelão surge também devido ao fácil manuseio na montagem e desmontagem da estrutura, uma vez que é um sistema composto por encaixes e vínculos e não necessita de mão de obra especializada. Ademais, é válido ressaltar que, por ser um material de baixa densidade, não necessita de fundações muito profundas, o que favorece os aspectos de custo e tempo de obra.

No Brasil, o papelão não é utilizado como elemento estrutural ou de vedação, existindo poucas normas referentes a esse material no acervo da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). Os tubos de papelão são mais usado na construção civil como fôrmas para concretagem, sendo um modelo prático e leve, necessitando de pouco tempo e mão de obra para a sua utilização, aumentando com isso a produtividade da obra em questão.

Seguem alguns exemplos de construções que utilizam tubos de papelão como elemento estrutural:

Catedral temporária da cidade de Christchurch, Nova Zelândia, 2014:

Fonte: Prêmio Pritzker 2014: Novas fotos da Catedral de Papelão de Shigeru Ban na Nova Zelândia – ArchDaily Brasil.1
Fonte: Prêmio Pritzker 2014: Novas fotos da Catedral de Papelão de Shigeru Ban na Nova Zelândia – ArchDaily Brasil.2

Domus de papel, Japão, 1998:

Fonte: Tubos de Papelão: Arquitetura e Design – Slide Serve.³

Escola temporária em Hualin, China, 2008:

Fonte: Os projetos humanitários de Shigeru Ban – ArchDaily Brasil.4

Pavilhão da Copa do Mundo na Embaixada do Brasil em Tóquio, Japão, 2014:

Fonte: Shigeru Ban usa papelão no projeto do pavilhão da Copa em Tóquio – SustentArqui.5

Assim, apesar dos tubos de papelão ainda estarem em estado de teste, é possível dizer que esse material já pode ser utilizado em pequenas construções e em obras temporárias, como a escola primária de Hualin, na China, onde ocorreu um terremoto em 2008 que destruiu boa parte das construções da cidade. Com a regularização do uso dos tubos, o acesso à moradia digna para aqueles que não a possuem será facilitado, uma vez que o material é de baixo custo, acessível e de simples manuseio. Além disso, é composto de material reciclado, o que contribui para a redução na emissão de gases do efeito estufa, sendo uma alternativa sustentável na construção civil.


BIBLIOGRAFIA

SOUZA, Eduardo.  O papelão como estrutura: da indústria às obras de Shigeru Ban. 2019. ArchDaily Brasil. Acessado 9 Mai 2020. Disponível em: <https://www.archdaily.com.br/br/913378/o-papelao-como-estrutura-da-industrias-as-obras-de-shigeru-ban&gt;.

SALADA, G. C. Construindo com tubos de papelão: um estudo da tecnologia desenvolvida por Shigeru Ban. Tese (Mestrado em Arquitetura e Urbanismo) – Escola de Engenharia de São Carlos da Universidade Federal de São Paulo. São Carlos. 2006.

Shigeru Ban: o arquiteto que utiliza seu talento em benefício da humanidade. Viva decora pro, 2018. Disponível em: <https://www.vivadecora.com.br/pro/arquitetos/shigeru-ban/>. Acesso em: 10 de Maio de 2020.

1Disponível em: <https://images.adsttc.com/media/images/5217/fa09/e8e4/4e45/fc00/0011/large_jpg/Anderson_MG_5070.jpg?1377303043&gt;. Acesso em: 10 de Maio de 2020.

2Disponível em: <https://images.adsttc.com/media/images/5c8f/9a07/284d/d1e4/9400/067a/slideshow/Bridgit_Anderson_2.jpg?1552914945&gt;. Acesso em: 10 de Maio de 2020.

3Disponível em: <https://www.slideserve.com/zephr-richard/tubos-de-papel-o-arquitetura-e-design>. Acesso em: 10 de Maio de 2020.

4Disponível em: <https://images.adsttc.com/media/images/532b/137c/c07a/803b/4200/002c/slideshow/DPP_0003.jpg?1395331948&gt;. Acesso em: 10 de Maio de 2020.

5Disponível em: <https://sustentarqui.com.br/shigeru-ban-usa-papelao-projeto-pavilhao-da-copa-em-toquio/>. Acesso em: 10 de Maio de 2020.

Instituto de Engenharia. Por dentro da capela de papelão que substitui uma igreja destruída por um terremoto. Disponível em: <https://www.institutodeengenharia.org.br/site/2013/08/08/por-dentro-da-capela-de-papelao-que-substitui-uma-igreja-destruida-por-um-terremoto/>. Acesso em 10 de Maio de 2020.

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